Casa de rosas e palavras
Falemos de amor, de magia e de liberdade. Falemos de cultura plena e afabilidade.
terça-feira, 20 de março de 2012
Inspiração
A cova rasa no fundo do quintal
Era para o sol de cada dia
que desaparecera das manhãs de sua vida.
A mesa sempre posta
com a toalha xadrez pungente
e guardanapos de pano iguais
observava esvoaçante
a gota de água intermitente
que a velha torneira desperdiçava sem parar.
O busto estranho da negra moça
continuava debruçado no aparador da cozinha
olhando suspirante um amor que nunca, nunca vinha...
Não havia chuva vindo ali no horizonte
o ar seco soprava um vento morno
que dizia assopros de cansaço.
A vida da arte dela acabara por todo o sempre
suas letras escorregaram todas para o fundo do glossário
e por lá ficaram sem tradução sinônima.
Contou, com olhar perdido nas nuvens,
doze passarinhos coloridos brincando no ar
mas não se moveu da cadeira por ter perdido as asas.
Seu chão havia há muito sumido
ela estava simplesmente só
e seu quintal cheirava ainda a flores do campo.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Tempo, tempo, tempo...
imagem: http://obed.zip.net
No templo das horas
A imensidão do tempo
É um buraco negro engolindo
A saúde.
Batem os copos passados
E os corpos condensados
Se eximem de vida
E louvam a falta de ar
Num bar.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Ler e escrever
Escrevo em linhas corretas
Concretas sempre que possíveis
Completas com ideias simples
Perpétuas em almas fortes
Eu leio porque as dores são fortes
Os machucados são simples
Mas os golpes concretos
E quase sempre perpétuos
Junto tudo isso em contas
Nem sempre coloridas
Mas às vezes transparentes e brilhantes
E formo um colar de viagens
Eu?
Coleciono vidas em formato de letrinhas
E nas noites frias
Como quando mamãe me fazia
Cozinho tudo e tomo em goles
Numa linda caneca de ar.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
O insano também vai de ônibus
A vida é bem engraçada e eu, uma expectadora convicta de que nada é impossível, estou sempre atenta às suas piadas. Por isso recuso-me a acreditar que loucos são os outros.
Tenho quase certeza de que loucos somos todos nós, os sãos. E que vivemos a grande mentira da sanidade que algum louco inventou e fez todo mundo acreditar através de uma hipnose da boa!
Dai que...
Depois de muito tempo ausente da rotina nada nobre das rotas coletivas de transporte, estava a caminho de providenciar o RG do meu bebê no coração ultra-mega-super pulsante e negro da minha Sampa, quando fui pega observando o não observável pela maioria das pessoas.
Tendo o privilégio de seguir viagem em assento preferencial, me sentei ao lado de um senhor já com seus setenta e poucos anos, uma barriga e bigodes de responsa e um sorriso largo demais pra alguém-de-sua-idade-que-mora-em-São-Paulo-e-tem-de-andar-de-ônibus.
Reparei que ele ria muito e sozinho, e mesmo que às vezes tentasse compartilhar o motivo de sua alegria com outros à sua volta (talvez para parecer normal!), eu sabia que aquelas eram risadas insanamente solitárias. Páh! Achei mais um personagem! Pensei. E daí até o final da viagem não tirei mais os olhos dele e demorei...
Demorei pra perceber qual era o motivo afinal de tanta graça para aquele velho homem que mais parecia saído de uma história de natal por causa de sua roupa coincidentemente vermelha que ornavam com suas bochechas rosadas. Já estava desistindo quando enfim dei de olhos com o objeto do sorriso dele.
O homem ria insanamente, de cada homem ou mulher transeunte que ele acreditava ser louco. Mas além de rir ele também comentava (agora olhando para mim) que, "ai, ai, ai, aquele lá tava falando sozinho, só pode ser doido, kkkkk"; "e aquele, deus do céu, é pirado porque, onde já se viu, usar uma camisa daquela cor a essa hora do dia". E "aquele ali, deitado com a cara no colchão mijado, só pode ter fugido de um hospício!".
Ele sorria tão convicto de que loucos eram os outros, que até convencia que realmente ele era "são"!
Bem, até ai, rir, mesmo que dos outros, pode ser um bom remédio e não faz realmente mal a ninguém, nem dá atestado de maluquice, ao menos até agora! Infelizmente para ele, só havia um probleminha, os loucos avistados por ele lá fora eram apenas refletidos em sua retina. É isso, eles não existiam!
Gostaria de, numa próxima vez, tentar conhecer melhor aquele senhor. Daria muito para conhecer todos aqueles seus personagens, e isso é realmente um desejo insano de minha parte.
Mas afinal, bem de perto, quem é realmente normal?
Tenho quase certeza de que loucos somos todos nós, os sãos. E que vivemos a grande mentira da sanidade que algum louco inventou e fez todo mundo acreditar através de uma hipnose da boa!
Dai que...
Depois de muito tempo ausente da rotina nada nobre das rotas coletivas de transporte, estava a caminho de providenciar o RG do meu bebê no coração ultra-mega-super pulsante e negro da minha Sampa, quando fui pega observando o não observável pela maioria das pessoas.
Tendo o privilégio de seguir viagem em assento preferencial, me sentei ao lado de um senhor já com seus setenta e poucos anos, uma barriga e bigodes de responsa e um sorriso largo demais pra alguém-de-sua-idade-que-mora-em-São-Paulo-e-tem-de-andar-de-ônibus.
Reparei que ele ria muito e sozinho, e mesmo que às vezes tentasse compartilhar o motivo de sua alegria com outros à sua volta (talvez para parecer normal!), eu sabia que aquelas eram risadas insanamente solitárias. Páh! Achei mais um personagem! Pensei. E daí até o final da viagem não tirei mais os olhos dele e demorei...
Demorei pra perceber qual era o motivo afinal de tanta graça para aquele velho homem que mais parecia saído de uma história de natal por causa de sua roupa coincidentemente vermelha que ornavam com suas bochechas rosadas. Já estava desistindo quando enfim dei de olhos com o objeto do sorriso dele.
O homem ria insanamente, de cada homem ou mulher transeunte que ele acreditava ser louco. Mas além de rir ele também comentava (agora olhando para mim) que, "ai, ai, ai, aquele lá tava falando sozinho, só pode ser doido, kkkkk"; "e aquele, deus do céu, é pirado porque, onde já se viu, usar uma camisa daquela cor a essa hora do dia". E "aquele ali, deitado com a cara no colchão mijado, só pode ter fugido de um hospício!".
Ele sorria tão convicto de que loucos eram os outros, que até convencia que realmente ele era "são"!
Bem, até ai, rir, mesmo que dos outros, pode ser um bom remédio e não faz realmente mal a ninguém, nem dá atestado de maluquice, ao menos até agora! Infelizmente para ele, só havia um probleminha, os loucos avistados por ele lá fora eram apenas refletidos em sua retina. É isso, eles não existiam!
Gostaria de, numa próxima vez, tentar conhecer melhor aquele senhor. Daria muito para conhecer todos aqueles seus personagens, e isso é realmente um desejo insano de minha parte.
Mas afinal, bem de perto, quem é realmente normal?
sábado, 17 de dezembro de 2011
Sobre o silêncio do outro
Do tempo e espaço ele escapa e segue adiante
Do infinito póstumo ele vem
Cavaleiro errante sempre a buscar forças no além.
Das flores mortas, mas não menos belas,
Cresce no seio de quem tem fé em quimeras.
Num descanso desinibido, se deleita no nada e navega conosco ao lado e a frente
Em detalhes de vida.
Floreia símbolos, enche porções e poções de olhos e ainda é um nada
Que não vemos, mas queremos.
E existe no som que não se fez, que ameaça ser em cores que
falam e desfalecem
Corrobora planos não feitos e partilha viagens há muito
perdidas
No tempo-espaço de nossas lembranças vividas.
Em nossa fé em tudo e em nada persiste seu viver premente
Num esgar de sonhos esfumaçados prende nosso hálito
Em
pequenas partes brilhantes da alma
Porque ele é simplesmente assim: o seu silêncio!
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