sábado, 3 de setembro de 2016

Um tempo para tudo, um tempo para se reconhecer no mundo


Há alguns meses eu e meu companheiro de vida ficamos desempregados.

Há alguns meses eu e meu companheiro, mais meu querido filhinho de quatro anos, por problemas que nem vale mais a pena ficar aqui reprisando, perdemos nosso apartamento.


Desde então, temos vivido na "corda bamba". Cada dia um novo sobressalto, um novo e difícil problema para resolver, uma nova e estressante decisão a tomar.

Temos tentado viver como quem acabou de acordar de um sonho ruim. Sempre esperando que o dia nos traga uma boa surpresa que nos faça esquecer a "noite ruim" que estamos tendo constantemente.

Em quase todas as nossas noites, nos últimos tempos, temos conversado sobre como resolver os problemas do próximo dia sem deixar que eles nos engulam, sem deixar que eles destruam nossos sonhos e nossas esperanças. E a cada manhã, ou em quase todas, acordamos renovados de esperança, com vontade de viver, de aprender, de cuidar de nosso filho, de nossas vidas e, pasmem, de nosso país.

Pois é, durante esses já quase dez meses de desemprego, que eu costumo de chamar positivamente de "ano sabático forçado", podemos dizer com orgulho que jamais ficamos parados "esperando a morte chegar", ou entramos em desespero a ponto de pensarmos em soluções drásticas para nossas vidas.

Em nenhum momento, e disso eu muito me orgulho, deixamos de tentar nos inteirar sobre a crise pela qual passa nosso país. Opinar, conversar com os amigos sobre o assunto, participar das mobilizações em prol do que acreditamos etc.


Em todos os dias tentamos nos reinventar: abrimos uma micro empresa de produtos artesanais, tentamos trabalhar com nossos atributos técnicos (faço massagem indiana e sou aromaterapeuta e meu companheiro é professor de capoeira e yoga infantil). Tentamos utilizar nossos dons culinários para ganhar o pão de cada dia, e também fizemos muito artesanato (outra coisa que adoramos fazer como hobby) para não deixar a peteca cair de vez.

Mudamos de casa, de cidade, de atitude.

Aprendemos a cultivar uma horta; a reaproveitar nossas roupas com nossa pequena máquina de costura; a fazer pequenos reparos domésticos para os quais sempre buscávamos ajuda de outros profissionais; aprendemos que é muito bom usar a bicicleta para fazer compras. Reaprendemos a valorizar pequenas coisas como acordar pela manhã ouvindo o canto dos pássaros e respirar ar puro no quintal; a perceber o crescimento discreto das plantas e suas peripécias para buscar a luz do sol, a curtir uma soneca na rede com nosso filho, e tantas outras coisinhas que estavam ali, bem na nossa cara, mas que nossa cegueira urbana não nos permitia ver, ouvir ou sentir...

Agora, estamos voltando para nossa cidade e para outra casa. Um novo recomeço nos aguarda e, mesmo ainda sem termos conseguido empregos formais, nós sabemos que voltamos melhores seres humanos do que saímos e que, desta forma, poderemos realizar tudo o for preciso para sobrevivermos e criarmos com dignidade o nosso filho.

Sentimos sim, muito orgulho de termos sido maiores do que nossa situação financeira nos permitiu e somos imensamente gratos pelas amigas e amigos queridos que fizeram com que não nos arrependêssemos de ser quem somos e de continuarmos acreditando na humanidade.

E viva a vida, sempre nos mostrando que o impossível só existe para quem não tem fé.



Um comentário:

Cláudia Leite disse...

Tili, orgulho-me de ter tido um pouquinho de ti. Me ajudou a repensar tanta coisa... e continua. Tudo foi forçado sim, e agora é dificil pensar, mas esse tempo trouxe muita reflexão a vcs.
Desculpe, me sinto em falta con vocês... mas por favor, no que eu puder ajudar, conte comigo.