quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Sobre "Black Mirror" e os espelhos escuros à nossa volta

Sense of Sight, de Juan Dó
Hoje tive a oportunidade de ler em uma rede social dois textos* que me fizeram pensar muito sobre o seriado Black Mirror** e sua conexão com a realidade atual. Juntando isso com a leitura de Inferno, de Dan Brown, que fiz há uns anos (pego carona na exibição atual do filme) pensei: afinal, se olharmos melhor, os espelhos negros já estão por todos os lados.

Black Mirror nos fala de um futuro não tão distante, mas eu acredito que o seriado esteja falando o tempo todo de nosso passado e presente também. Sabe como? Ele nos diz...

- Como somos intolerantes em qualquer tempo (Odiados pela Nação);

- Como podemos ser racistas em qualquer tempo e mesmo quando não parecemos ser (Engenharia Reversa);

- Como somos machistas e possessivos em qualquer tempo (Toda a sua história);

- O quanto apreciamos a humilhação alheia, mesmo que isso nos enoje ou nos dê medo (Hino Nacional ou Quinze Milhões de Méritos ou Urso Branco);

- Joga na nossa cara o quanto somos carentes e precisamos desesperadamente da aprovação dos outros para os sentirmos "bem" (Queda Livre);

- Até que ponto podemos chegar para satisfazer nossos desejos egoístas (Volto já e Urso Branco);

- Nos alerta em como desperdiçamos nossas vidas em troca de qualquer coisa que nos afaste da realidade (Versão de Testes);

- Demonstra, de forma assustadora, e não mais do que deveria ser para pais e mães, o quanto expomos nossos filhos à violências de todas as ordens, muitas vezes apenas para satisfazer nosso próprio prazer de mostrar o quanto somos bons pais e mães (Manda quem pode);

- Em como somos capazes de abrir mão de nossos sentimentos, apenas para manter convenções ou uma falsa liberdade (San Junipero).

E, tenho certeza, de que muito mais pode ser retirado de cada um dos episódios já exibidos e tão exaustivamente assistidos em todo o mundo.

Elenquei os episódios fantásticos (entre parenteses) junto aos problemas de fato enfrentados pela humanidade, para mostrar que, se para alguns isso parece coisa nova, trazida pela modernidade e suas ferramentas "maquiavélicas", para mim é apenas uma repetição de eras passadas. Basta revisitar apenas os fatos da história recente como a caça às mulheres sábias (bruxas) promovida pela inquisição da igreja católica, ou a colonização escravagista das Américas, ou as duas grandes guerras mundiais (só pra começar),e então perceberemos infalivelmente nossa tendência sadomasoquista.

Narcissus, de Caravaggio

O ser humano, em qualquer tempo ou espaço, está sempre arranjando formas de se autodestruir, se autossabotar, e arrasta, no processo, tudo à sua volta.

Os novos tempos e, portanto suas novas ferramentas, ao contrário do que possa parecer, podem estar nos dando a chance (mais uma vez) de repensar esse círculo vicioso de morte e degradação, quando nos mostra, em um espelho do futuro, o que espera nossa frágil humanidade.

Termino esse texto com uma citação do professor que me inspirou a assistir a série:

"Fátima Bernardes é uma mulher fascinante e fiquei feliz em encontrá-la no programa do dia 15 de novembro. Muitas pessoas desejaram administrar minhas escolhas e minha agenda e disseram que não concordavam com X ou Y. Respeito as divergências, mas, da minha parte, mal consigo administrar minha vida e minhas escolhas, quanto mais pontificar sobre as alheias. Ouso conselhos simples: quando você não gostar de algo, não faça. Quando gostar de algo, faça. Quando for convidado para um lugar que não concorda, recuse. Seja sempre você mesmo e permita que os outros também sejam. Deixe que os outros tomem suas próprias decisões. Evite administrar o alheio. Eu sempre afirmo: a minha vida isolada já é bem complexa para que eu tenha força para escrever roteiro para os outros.
O ano está terminando. Você já atingiu todas as suas metas em 2016? Já venceu nos campos aos quais se dedicou? Sim? Não? Nos dois casos, permita aos outros que errem de acordo com suas escolhas. Isso nos deixa muito leves." 

Leandro Karnal para sua TL no Facebook em 17 de novembro de 2016.


* Os dois textos foram divulgados por suas autoras na Rede Social Linkedin: O que você faz nas redes sociais diz muito sobre você, de Denise Maia Soares em 09/11/2016, e O Episódio Assustador de Black Mirror que já é realidade no dia a dia, de Flavia Gamonar em 10/11/2016.

** Seriado que está sendo exibido pela Netflix.

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